"Portugal, meu avôzinho", um samba lusotropicalista
trânsito musical, midiático e ideológico no mundo lusófono na década de 1950
Palavras-chave:
Música Popular, Luso-tropicalismo, Mundo lusófono, Rádio Clube de Moçambique, Mediação cultural e colonialidadeResumo
Esta comunicação analisa o caso do samba “Portugal, meu avôzinho”, composto por Ary Barroso sobre letra de Manuel Bandeira, como estudo de caso das articulações entre música popular, imprensa, rádio e ideologia no mundo lusófono da primeira metade do século XX, com ênfase na década de 1950. A partir de fontes hemerográficas brasileiras e da revista Rádio Moçambique, publicada pela emissora homônima em Moçambique, o trabalho investiga a rápida circulação transatlântica de notícias sobre a canção, sua recepção no Brasil e sua mobilização discursiva no contexto colonial português. O objetivo é compreender como a música popular brasileira pôde operar como meio de mediação simbólica entre Brasil, Portugal e territórios africanos sob domínio português, em um momento marcado pela reconfiguração ideológica do império colonial, pela valorização oficial do luso-tropicalismo e pela construção de uma comunidade lusófona imaginada. Metodologicamente, a pesquisa combina análise histórico-documental, crítica do discurso e estudo das mediações musicais e midiáticas, tomando a imprensa e a rádio como agentes ativos de circulação cultural. Argumenta-se que, embora a canção não tenha se consolidado como fonograma à época, nem alcançado efetiva realização pública, sua intensa repercussão jornalística revela uma rede de intelectuais, jornalistas, diplomatas e artistas empenhados em produzir uma imagem afetiva e conciliadora das relações luso-brasileiras. O caso permite observar, assim, as tensões entre circulação musical, diplomacia cultural e legitimação ideológica do colonialismo português no pós-guerra.