A dimensão estético-política do debate sobre transcrição musical no Brasil
Palavras-chave:
Transcrição musical, Tradução literária, regimes de identificação da arte, estética, Jacques RancièreResumo
Por meio de uma revisão bibliográfica dos trabalhos mais citados sobre transcrição musical no Brasil (os trabalhos de Flávia Pereira, Victor Melo Vale e João Victor Bota), constatamos um consenso em caracterizá-la pela alteração do meio instrumental e pela manutenção da fidelidade à obra original, embora haja divergências sobre sua definição e sobre os limites impostos pelo conceito de fidelidade. Os autores recorrem à aproximação com a tradução poética para tentar resolver o problema, normalmente focalizando aspectos técnicos. Com o objetivo de redirecionar os termos do debate e abordar a dimensão estético-político que orienta a perspectiva destes autores, analisamos tais propostas tendo como referencial conceitual os regimes de identificação das artes, do filósofo Jacques Rancière. Concluímos que a transcrição musical não se limita a um problema técnico ou de linguagem: há uma tensão inerente ao jogo da transcrição dentro do regime estético das artes (que organiza as maneiras de fazer, formas de visibilidade e modos de conceituação das práticas artísticas desde a “revolução estética”), tensão que dois dos autores mencionados tentam resolver recorrendo a lógicas inerentes aos regimes anteriores (ético e poético ou representativo); somente um demonstra uma concepção influenciado por este regime, colocando mais ênfase nas idiossincrasias do trabalho do transcritor do que na proposição de parâmetros para a identificação e delimitação da prática.